Quem me conhece sabe o quanto sou apaixonado pelo Sairé. São muitos conteúdos ao longo desses anos e se você pesquisou sobre esse tema e pensa que é apenas uma disputa entre dois botos, sinto informar: você ainda não conhece o Sairé de verdade!

Em setembro todo ano, o distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA) muda de ritmo. As ruas ficam movimentadas, o Rio Tapajós vira cenário para inúmeras fotos ao pôr do sol, a comunidade se prepara e uma tradição que atravessa gerações volta a ocupar o centro das atenções.

E se você está pensando em viver essa experiência, aqui vão seis motivos para colocar o Sairé no seu roteiro agora mesmo!

1 – Sairé além do Festival dos Botos

Corte do Rito Tradicional do Sairé (Foto: Lucas Clemente)

Vamos começar desfazendo uma interpretação muito comum. O Sairé não é sinônimo de Festival dos Botos. Vamos desenhar? O Festival dos Botos é uma das partes dessa festa.

O Sairé reúne diferentes manifestações culturais e religiosas, com destaque para o Rito Tradicional, que mantem viva uma tradição através dos cantos, danças, procissões, dos mastros, das ladainhas e outros elementos transmitidos entre gerações. E é justamente nesse encontro de elementos sagrados e profanos da cultura popular amazônica que a festa personifica uma manifestação tão singular.

Tão singular que é reconhecido desde 2024 por meio da Lei Federal nº 14.997, como manifestação da cultura nacional. Assim, antes de escolher Tucuxi ou Cor de Rosa, é recomendável conhecer a história desse rolê.

Leia mais: Sairé com ‘S’ ou ‘Ç’?

2 – Para sentir o ritmo da nossa cultura

Tem coisas que não dá para explicar só com palavras, não é verdade? É preciso ouvir, sentir… E o Sairé é múltiplo: música, dança, canto, carimbó, folia e gente. Sim, pessoas! As senhorinhas que rezam no barracão, os foliões que arrastam a multidão e os animados integrantes do grupo Espanta Cão (até rimou, hein?).

Em Alter do Chão, seja o impacto do carimbó ou as histórias que podemos ouvir em uma conversa despretensiosa não estão no guia turístico. Eles fazem parte da vida da comunidade. É cultura que se aprende ouvindo, observando, participando do Beija-Fitas e deixando a experiencia te conduzir através dos sons.

Veja também: Cinco símbolos do rito tradicional do Sairé.

A tradição, essa que tanto falamos, está em movimento. E se você quiser compreender a nossa Amazônia (de verdade!), sem aqueles estereótipos dos comerciais, preste atenção nas pessoas que vivem aqui. Vai fazer a diferença, acredite!

3 – Alter do Chão já seria motivo suficiente

O Rito Tradicional e o Festival dos Botos não acontecem por acaso em Alter do Chão. Eles estão firmados no solo do Território Indígena Borari, um dos um dos lugares mais conhecidos do Pará e mais disputados entre visitantes brasileiros e estrangeiros.

De um lado, o Rio Tapajós, do outro, o Lago Verde. E, ao redor, praias de água doce, areia branca, floresta e um sol de 40 graus. Tudo isso numa vila que durante o Sairé se transforma em um grande espaço de encontros e conexões.

Praia da Ilha do Amor, um dos atrativos turísticos de Alter do Chão (Foto: Agência Pará)

Aí fica fácil turistar, afinal, Alter do Chão ultrapassa o fato de ser o endereço da festa para ser parte da própria experiência. E tudo aqui é muito nosso, os restaurantes com a gastronomia amazônica, os docinhos da Praça Sete de Setembro, o tacacá no final da tarde, o vatapá com muito camarão regional e tantos outros detalhes que jamais vão passar despercebidos aos olhos atentos de um viajante curioso.

Caminhe pelas ruas do distrito, dialogue com os moradores, compre artesanato, experimente os sabores, mergulhe no rio e contemple o pôr do sol, enfim, aproveite cada segundo da viagem para além das fotos, que ficarão bonita naturalmente.

4 – Conheça a história dos Botos

No final de semana do Sairé, chegamos ao espetáculo que provavelmente você já viu nas redes sociais e nas pesquisas na internet. Os botos Cor de Rosa e Tucuxi transformam a cultura amazônica em uma grande apresentação no Lago dos Botos, a nomenclatura oficial da arena onde acontece a disputa.

O Festival dos Botos foi criado em 1997 e passou a integrar a programação do Sairé, reunindo música, dança, artes cênicas e narrativas inspiradas nas tradições e nos saberes da nossa região. E óbvio que sempre existem comparações com o “Boi de Parintins”, mas é muito importante compreender que estamos falando de um evento com linguagem e identidade próprias.

Por aqui, a comunidade compõe as diretorias das agremiações, faz parte da comissão de arte, da cenografia, da confecção das roupas, da montagem das alegorias, é um trabalho intenso, que tem intercâmbio com artistas de outros Estados, como o Amazonas. São centenas de fazedores de cultura, compositores, dançarinos, cenógrafos, músicos, artesãos e brincantes que dedicam meses para colocar os espetáculos na arena.

5 – Escolha seu lado

Em Alter do Chão não tem essa história de ficar em cima do muro. Se você acompanha o Festival dos Botos, cedo ou tarde alguém vai perguntar: “Tu és Rosa ou Tucuxi?”.

O Boto Cor de Rosa e o Boto Tucuxi representam as duas agremiações da festa e protagonizam uma disputa que movimenta Alter do Chão. E isso mistura identidade, pertencimento, torcida e aquela paixão que também é repassada de geração em geração. E não é sobre perder ou ganhar, é sobre sentir a emoção da torcida e entrar na onda.

Dizem que o boto te escolhe. Então, esteja preparado para ser seduzido!

6 – O Sairé é uma experiência que você não apenas assiste

Olha, você não vai ao Sairé apenas para assistir. É preciso ir livre para sentir, ouvir o carimbó, dançar, acompanhar o rito, conhecer e ouvir as histórias, experimentar o tarubá, comer um charutinho frito, encontrar os amigos, rever outros, conhecer pessoas, enfim, descobrir o território em que estás pisando.

O nosso Sairé é resultado do encontro de diferentes matrizes culturais e religiosas e continua sendo reinventado pela própria comunidade, sem deixar de carregar suas tradições. E essa capacidade de permanecer vivo é o que faz dessa festa uma das manifestações culturais mais importantes da Amazônia e do Brasil.

Catraias decoradas na Busca dos Mastros (Fotos: Lucas Clemente)

É isso, se você nunca foi, vá. Mas vá com disposição para olhar além do espetáculo e viver a experiência do Sairé de Alter do Chão. Partiu?!

Sobre o autor

Amazônida 🌳 Jornalista | MBA em Gestão de Eventos | Cineasta | Produtor de Conteúdo Digital | Produtor de Eventos | Fazedor de Cultura | Presidente do Conselho Municipal de Política Cultural

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