A Fazenda Taperinha é um dos lugares que mais gosto de visitar. E desta vez, a viagem foi de barco, saindo da orla de Santarém (PA), navegando pelo Rio Amazonas, entrando no Rio Ituqui e o Paraná do Aiaiá. A chegada ao casarão pela água é impressionante, que visual, parece uma viagem no tempo que na minha mente criativa tem a trilha sonora de “Tema para Ana”, do Tom Jobim.
Nesta época do ano, por causa do verão amazônico, o cenário é outro. Um torrão se forma bem na frente da casa grande e uma ponte de madeira com 300 metros de comprimento é o nosso acesso. Bem diferente da visita que realizamos em 2020, quando chegamos pela estrada em nossas bicicletas, o lugar consegue surpreender por um novo ângulo.
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Fomos recebidos pelo anfitrião Rui Hagmann, um dos herdeiros da propriedade e descendente de Gottfried Ludwig Hagmann, acompanhado da esposa Lucieta Martorano, uma atração à parte com seu conhecimento científico e histórico.

A casa, construída no Século XIX, está aos poucos sendo restaurada, ganhando vida e elementos novos, como um pequeno jardim vertical no pátio. Adentrar é voltar ao passado, afinal, alguns móveis dão o tom do passado e nas paredes as fotografias antigas são lembranças dos vários ciclos que a Taperinha vivenciou nesse passado recente desde o Barão de Santarém até a chegada da Família Hagmann.
A Fazenda Taperinha possui uma área de 4.800 hectares. Pertenceu a Miguel Antônio Pinto Guimarães, o Barão de Santarém, que construiu o casarão e engenho em meados de 1860 , em sociedade com o imigrante norte-americano Romulus J. Rhome. No engenho trabalhavam pelo menos 30 escravizados que produziam açúcar e cachaça, o lugar tinha uma roda d´água, movida através de um desvio em um igarapé da propriedade, substituído anos mais tarde por um moinho a vapor, uma novidade na época. Após a morte do Barão em 1882, o lugar ficou abandonado e em 1911 foi adquirido pelo cientista e naturalista alemão Gottfried Ludwig Hagmann.
Mas o que seria uma casa estilo bandeirantista ou bandeirista? A Vitruvius, no artigo “A Casa Bandeirista: Proposta de uma ambiência bandeirista para uma galeria de artes”, das autoras Andrea Petini, Bianca Yinli Wu Candido Rodrigues e Elisabeth Berlato, define:
A casa bandeirista é marcada pelo estilo de planta retangular, sala social central, dormitórios distribuídos ao redor da sala, sem corredores, poucas aberturas no qual confere segurança à residência e, consequentemente, seu interior torna-se pouco iluminado. O chão é configurado por terra batida.
Na parte posterior da casa, as cozinhas eram instaladas em puxados construídos em anexos à residência, as chamadas tacaniças. Na parte frontal, a residência era ladeada pela capela, com acesso externo e interno à residência e pelo dormitório de hóspedes, único cômodo isolado, pois, tinham somente acesso externo, independente da área íntima da residência.
Sua fachada é caracterizada pela presença de alpendre, pelos cachorros – colunas entalhadas em madeira de empenas lisas.
A técnica construtiva aplicada nessa edificação era a taipa de pilão, cuja origem árabe foi trazida ao Brasil pelos portugueses (…)
Dica do FB: A Fazenda Taperinha é uma propriedade privada e para visitar é preciso autorização da família Hagman.
Este lugar tem tradição na produção de ciência e a família Hagmann protagoniza essa vocação natural com várias iniciativas, entre elas, a instalação em 1914 da primeira estação meteorológica do Oeste do Pará. No arquivo encontram-se fichas com informações da precipitação pluvial, isto é, das chuvas na localidade e da régua milimétrica do nível do Paraná do Aiaiá. O acervo documental é tão importante que também existem dados meteorológicos do Rio de Janeiro, onde foi construída a primeira estação do país, na residência do pioneiro da meteorologia, Sampaio Ferraz. E de outras estações, como a da praia de Salinas, a primeira do Pará, montada em 1910. Ou seja, os dados são homogêneos e permitem uma análise até 1981. Atualmente a estação da Taperinha foi revitalizada pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e está automatizada, com sensores de perfil de vento e outros sensores de alta resolução para o monitoramento agrometeorológico e meteorológico.
E se a história recente dos moradores da fazenda chama atenção, podemos ir um pouco mais ao passado e encontrar vestígios arqueológicos nas terras da Taperinha. Não à toa, o lugar foi visitado por naturalistas como Joseph Beal Steere, Charles Hartt, João Barbosa Rodrigues, Herbert Huntingdon Smith e W.A. Schulz, entre outros. E mais recente, em 1993, a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, escavou os famosos sambaquis da propriedade.

E o que são os sambaquis? Essa ocupação primitiva na região, segundo os pesquisadores, tem entre sete e oito mil anos e apresentam restos de peixes, crustáceos, moluscos, cerâmicas, utensílios utilizados para alimentação e para cerimônias. Os sambaquis da Taperinha foram escavados pela primeira vez 1870 por Charles Hartt e até hoje representam um dos maiores achados arqueológicos do Brasil.

O sambaqui que vistamos fica bem próximo do casarão, cerca de 300 metros. É uma elevação com mais de quatro metros de altura de onde “brotam” conchas. A vontade é de escavar e ficar horas ali tentando compreender a riqueza que esse tipo de assentamento humano possuía. E nesse contexto, entender de fato como essas sociedades passadas viviam e o que aconteceu com esses nossos ancestrais.

Impressionante e como sempre uma experiência única estar por aqui, todos precisam conhecer um dia a Fazenda Taperinha!
Serviço:
Fazenda Taperinha (Rui Hagmann)
Telefone e WhastApp: (68) 9976-2528
Com informações de Vitruvius, Embrapa, Revista Pesquisa Fapesp e Ensinar História