Você já parou para pensar por que Santarém se chama Santarém? Essa reposta atravessa o Oceano Atlântico, passa por Portugal, chega ao século XVIII e, antes disso, ainda precisa voltar para uma história muito mais antiga, a dos povos indígenas que já viviam por aqui muito antes de existir qualquer vila com nome português.
Antes do nome que conhecemos hoje, esse território era conhecido na cartografia pelo termo “Tupaiú” ou “Tupaiú-Paraná”. Quando os colonizadores aportaram por essas terras, os Tapajós já estavam aqui. A área onde hoje está Santarém era ocupada por populações indígenas, um povo que deixou uma das mais impressionantes tradições arqueológicas da Amazônia.
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Em 22 de junho de 1661, o padre jesuíta João Felipe Bettendorff instalou uma missão na chamada Aldeia dos Tapajós. É essa data que a tradição histórica oficial considera como marco da fundação do núcleo que daria origem à cidade.
Mas atenção para um detalhe importante: 1661 ainda não é a história de uma cidade chamada Santarém. Era uma missão estabelecida dentro de um território indígena que já tinha sua própria história. Deu para entender?
Bettendorff construiu uma primeira capela de taipa de mão dedicada a Nossa Senhora da Conceição, junto à Ocara-Açú (terreiro grande) e a missão passou a fazer parte do processo de catequização e ocupação colonial portuguesa da região.
E quando apareceu o nome Santarém?
Durante boa parte do período colonial, o lugar continuou associado à Aldeia dos Tapajós. Mas em 14 de março de 1758, quase um século depois da instalação da missão, que o governador do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, elevou o povoado à categoria de vila. E aí aconteceu a mudança de nome: A Aldeia dos Tapajós foi rebatizada de Vila de Santarém.
Mas por que Santarém? Porque o novo nome foi dado em homenagem à Santarém de Portugal. Mendonça Furtado estava promovendo uma reorganização administrativa da região e, durante sua viagem pelo Tapajós, criou ou oficializou várias vilas com nomes portugueses.
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Na mesma viagem, outros povoados também receberam nomes portugueses. A antiga aldeia dos Boraris passou a ser Alter do Chão; a aldeia dos Tupinambás deu origem a Boim; a região dos Arapiuns e Cumarús passou a ser Vila Franca; e a antiga aldeia dos Maytapus recebeu o nome de Pinhel.
Mas de onde veio o nome Santarém em Portugal?
A cidade portuguesa de Santarém possui uma história muito antiga e já teve outros nomes ao longo dos séculos. A tradição cristã relaciona a origem do nome à figura de Santa Iria, também chamada Santa Irene.
Existe uma tradição segundo a qual o nome teria evoluído de Santa Iria para formas como Sant’Irene, chegando posteriormente a Santarém. Então temos uma espécie de viagem no tempo:
Santa Iria → Sant’Irene → Santarém
Aqui, é bom fazer uma observação: essa explicação está ligada à tradição histórica e à evolução toponímica de Santarém, em Portugal. Não significa que exista uma única explicação simples e incontestável para cada etapa dessa transformação. E foi esse nome português que acabou atravessando o Atlântico e chegando ao Baixo Amazonas.
Assim, o nome Santarém é uma referência portuguesa. Mas a história do nosso lugar não começa em Portugal, muito menos com a chegada/invasão dos colonizadores. A pesquisa arqueológica realizada na região mostra a importância das populações indígenas que ocuparam o território muito antes dessa formação da vila colonial. A arqueologia de Santarém, inclusive, revelou uma produção cerâmica de enorme complexidade, hoje reconhecida como uma das grandes expressões da arqueologia amazônica.
Quando Santarém virou cidade?
Outra data importante para guardar: 24 de outubro de 1848. Foi nesse dia que Santarém deixou de ser apenas vila e recebeu oficialmente a categoria de cidade. Inclusive, a Rua 24 de Outubro (antigo “Caminho dos Índios”) que liga a Praça Dr. Waldomiro Rodrigues dos Santos ao bairro da Aldeia, recebeu esse nome em homenagem à data
Uma parte das reflexões presentes neste texto também nasceu de muitas conversas e trocas com meu amigo Diego Alano Pinheiro, (autor do mini-documentário “Devir Urbano”) com quem venho pesquisando e dialogando sobre as relações entre a Santarém do Brasil e a Santarém de Portugal.
Fontes e Referências:
- PREFEITURA DE SANTARÉM – Portal do Turismo. Acesso em 29 de setembro de 2026.
- GÓES NEVES, Eduardo. A cidade de todos os tempos (2015). Acesso em 28 de setembro de 2026.
- VISITE SANTARÉM – Portugal. História. Acesso em 29 de setembro de 2026.
- IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia. Acesso em 29 de setembro de 2026.
- IPHAN – Biblioteca Digital. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 3, de 1939, “A Cerâmica de Santarem”, de Carlos Estevão. Acesso em 29 de setembro de 2026.
