A nossa Santarém não é só encontro de rios, é encontro de histórias, algumas intensas e, muitas vezes, pouco conhecidas. Se liga nessas curiosidades que atravessam séculos:
1 – Antes dos Europeus, já existia uma “civilização amazônica”
Muito antes de qualquer navegador europeu surgir no horizonte dos rios Amazonas e Tapajós, na região já existia uma organização social, espiritualidade e conhecimento. Os povos originários ocupavam uma vasta área do Baixo Amazonas e construíram uma das culturas mais sofisticadas da Amazônia pré-colonial. Não eram grupos isolados perdidos na floresta, como durante muito tempo tentaram fazer parecer. Existiam aldeias grandes, redes de troca, domínio sobre os rios e uma produção artística impressionante, especialmente a cerâmica tapajônica, produzida pelos Tapajó, considerada hoje uma das mais elaboradas e simbólicas da América pré-colombiana.
As famosas peças tapajônicas chamam atenção até hoje pela riqueza de detalhes, pelos grafismos e pelas figuras humanas e animais moldadas em barro. Muitos arqueólogos consideram essas produções verdadeiras obras de arte ancestral. Boa parte dessas peças foi retirada da região ao longo dos séculos e hoje está espalhada em museus do Brasil e do exterior, reforçando o quanto a cultura Tapajó impressionou pesquisadores e viajantes desde os primeiros contatos europeus.
E talvez esteja aí uma das maiores distorções históricas que a Amazônia sofreu, a ideia de “vazio”. Durante muito tempo publicaram a narrativa de que os europeus chegaram a uma terra “desabitada e selvagem”. Mas a arqueologia e os relatos históricos mostram exatamente o contrário.
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2 – O primeiro contato não foi nada amigável
Em 1542, o espanhol Francisco de Orellana passou pela região, sua expedição foi atacada pelos indígenas Tapajó, que eram excelentes nadadores e lutavam com pedaços de madeira afiados. Esse episódio marca um dos primeiros registros de conflito direto entre europeus e povos da região
No meio do confronto, o frei Gaspar de Carvajal, cronista da expedição, teve o olho perfurado por uma flecha, e ainda assim seguiu viagem registrando tudo na obra denominada “Relación del nuevo descubrimiento del famoso río grande de las Amazonas”, o principal relato histórico da viagem.
Esse episódio já mostra uma coisa: os povos daqui não aceitaram a invasão de forma passiva. Resistiram e lutaram!
3 – O Tapajós entra na disputa colonial
O navegador português Pedro Teixeira passou pela região com uma tropa estratégica em 1626. O objetivo da viagem era percorrer o Rio Amazonas até o Peru. Anos depois, essa proeza expedicionária ajudaria a consolidar o domínio português sobre a Amazônia, algo decisivo pra formação do Brasil como a gente conhece hoje.
4 – Os colonizadores vieram de batina
Depois da passagem de exploradores como Pedro Teixeira e do avanço do interesse português sobre o Tapajós, os jesuítas assumem papel fundamental no processo de ocupação da região. É nesse contexto que o padre João Filipe Bettendorff chega à aldeia dos Tapajós em 22 de junho de 1661.
Segundo registros históricos, o missionário luxemburguês construiu a primeira capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição e instalou ali uma missão jesuítica, junto à Ocara-Açu (terreiro grande), lugar simbólico para os indígenas Tapajó. A presença portuguesa na região por meio da catequização, educação e organização das aldeias missionárias liderada por ele marcou o surgimento do núcleo urbano que, décadas depois, daria origem à cidade de Santarém.
5 – A Fortaleza
A construção da Fortaleza de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Monte Alegre dos Tapajós começou em 1693, em um ponto estratégico na foz do Rio Tapajós, no encontro com o Rio Amazonas. A localização privilegiada garantia ampla visão de defesa da região e reforçava o controle português sobre uma das áreas mais disputadas da Amazônia.
Projetada para proteger o território de “invasões” estrangeiras no fim do século XVII, a obra foi encomendada a Francisco da Costa Falcão e, após sua morte, concluída por seu filho Manoel da Mota Siqueira, em 1697.
6 – Santarém ganha nome e perde parte da identidade
Sob orientação do Marquês de Pombal, o governador do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado transforma aldeias em vilas portuguesas, em 1758. É nesse momento que surge oficialmente o nome Santarém.
No ano seguinte, os jesuítas são expulsos e o português vira a única língua permitida, uma mudança profunda na cultura local, com o objetivo de apagar identidades indígenas e reforçar o domínio português.
Dica do FB: Neste mesmo ano, o capitão-general do Exército e administrador colonial doou à Igreja de Santarém a imagem de Nossa Senhora da Conceição, esculpida em peça única de carvalho no estilo barroco português. A imagem permanece preservada até hoje, atravessando séculos como um dos símbolos mais antigos da fé e da memória deste território.
7 – A Cabanagem chega forte
Entre 1835 e 1840, a Amazônia viveu um dos episódios mais violentos e pouco debatidos da história do Brasil: a Cabanagem. O movimento nasceu da revolta de indígenas, negros, ribeirinhos e populações pobres contra a extrema desigualdade social e o abandono imposto pela elite da então Província do Grão-Pará durante o período imperial. O nome vem das “cabanas”, moradias simples onde vivia grande parte da população amazônica. A revolta chegou a tomar o poder em Belém e transformou a região em cenário de guerra civil, deixando milhares de mortos.
Em Santarém, os impactos da Cabanagem foram profundos. A cidade se tornou área estratégica dentro do conflito por estar posicionada entre importantes rotas fluviais da Amazônia. Tropas, embarcações e grupos armados circulavam constantemente pelo Tapajós, enquanto a população local vivia entre o medo, a fome e as disputas políticas. O movimento também provocou divisões entre grupos indígenas e lideranças locais. Em 1836, registros históricos apontam que lideranças munduruku ofereceram apoio às tropas imperiais na defesa da vila contra os cabanos, mostrando como o conflito atingiu diretamente os povos originários da região.
Mas a Cabanagem deixou marcas muito além da política. Ela alterou relações sociais, econômicas e culturais em toda a região do Tapajós. Muitos indígenas foram perseguidos, mortos ou deslocados durante o conflito, enquanto comunidades inteiras desapareceram ou perderam força ao longo do século XIX.
8 – Boim vira potência econômica
Muito antes de existir estradas ou portos estruturados, a comunidade de Boim já ocupava uma posição estratégica no Rio Tapajós. Localizada na margem esquerda do rio, a antiga vila, fundada ainda no período das missões jesuíticas, se transformou em um importante ponto comercial da região amazônica.
Durante o século XIX, Boim ganhou relevância econômica graças à circulação de comerciantes, regatões e famílias ligadas ao comércio regional, incluindo grupos associados à tradição sefardita. A localidade chegou a concentrar forte atividade econômica ligada ao extrativismo e às rotas comerciais do Tapajós, num momento em que os rios eram as grandes “estradas” da Amazônia. A movimentação era tão intensa que, por um período, Boim possuía maior influência econômica do que localidades que depois se consolidariam como centros urbanos mais fortes, como Santarém e Itaituba.
Além da economia, Boim também se tornou um símbolo da diversidade cultural amazônica. Ali se cruzavam tradições indígenas, influência portuguesa, práticas religiosas católicas e heranças culturais de famílias comerciantes vindas de diferentes partes do mundo.
9 – Estrangeiros mudam a dinâmica local
Após a derrota do sul dos Estados Unidos na Guerra da Secessão, em 1867, milhares de norte-americanos conhecidos como Confederados deixaram o país em busca de novas oportunidades. O Brasil, que ainda mantinha a escravidão naquele período, virou um dos destinos mais procurados. Enquanto muitos seguiram para São Paulo, grupos menores também chegaram à Amazônia e passaram pela região do Tapajós.
A chegada desses estrangeiros trouxe mudanças importantes para a dinâmica econômica da região. Eles introduziram novas técnicas agrícolas, métodos de cultivo e formas diferentes de organização da produção rural. Em algumas áreas, também ajudaram a modernizar o transporte fluvial e a circulação de mercadorias pelos rios amazônicos. O contato entre amazônidas e os imigrantes norte-americanos gerou trocas culturais curiosas, misturando hábitos locais com costumes trazidos diretamente do sul dos Estados Unidos.
Dica do FB: A presença dos Confederados também carrega um lado controverso da história. Muitos vieram ao Brasil tentando reconstruir um modo de vida ligado ao antigo sistema escravista derrotado na guerra americana.
