O Lago Batata não é só um nome curioso na Amazônia paraense, mas também um capítulo de reflexão sobre a mineração e o meio ambiente. Fui até lá em outubro de 2024, a convite da Mineração Rio do Norte (MRN), para produzir uma série sobre restauração ecológica, intitulada “Mitos e verdes sobre o Lago Batata”. Fui até lá em outubro de 2024, a convite da Mineração Rio do Norte (MRN), com a equipe da Lamparina Filmes, para produzir uma série sobre restauração ecológica, intitulada “Mitos e verdes sobre o Lago Batata”. Tive a oportunidade de caminhar nas margens, conversar com ribeirinhos, técnicos e pesquisadores, observar o nível da água, o igapó replantado e acompanhar as ações de monitoramento. Estávamos em pleno verão amazônico, estiagem histórica e vi de perto, fui testemunha, assim, meu olhar parte de uma outra camada, que não só considera dados técnicos, mas também experiência sensorial, afinal, senti o cheiro do barro seco, o vento debaixo das árvores e reparei as aves voando e pousando nos galhos e o ruído das bajaras cortando o silencio das águas.

Com o querido produtor Paulo Afonso, o P.A., nos bastidores da gravação da série “Mitos e verdes sobre o Lago Batata” (Foto: Arquivo Pessoal)

Conheça o projeto: https://mrn.com.br/olagobatatavive/

A história do Lago Batata, no distrito de Porto Trombetas, em Oriximiná (PA) começa com impacto em 1979. Com deposição de rejeitos de bauxita no passado que alteraram a lâmina d’água e a vegetação de igapó. A MRN em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e as comunidades, vem desde os anos 1980 e 1990 realizando intervenções, com um trabalho que combina ciência (monitoramento e estudos) e restauração prática (plantio de espécies nativas, manejo dos sedimentos, recuperação de conectividade ecológica). É um projeto longo, afinal, já são décadas de trabalho e, com resultados que hoje a empresa e pesquisadores documentam como “jornada de restauração”.

Dados disponíveis na plataforma da MRN sobre a jornada de restauração do Lago Batata (Imagem: Reprodução)

Quando números são apresentados, como hectares recuperados, mudas plantadas ou retorno de fauna, estamos diante de resultados que podemos afirmar: sim, são concretos. Existem relatórios e até um e-book da própria mineradora que detalham essa trajetória e mostram metodologias que combinam ciência e prática de campo. Alguns prêmios e reconhecimentos também foram alcançados ao longo desses anos, o que ajuda a colocar esse case em destaque nacional, como exemplo de restauração ligada ao setor mineral.

E dentro desse contexto é importante pensar e refletir, os bons resultados não eliminam responsabilidades históricas, nem questões políticas. A restauração é necessária e legítima, mas não substitui o debate sobre reparação integral, participação social, e transparência sobre os impactos. Durante os dias de campo, percebi como a narrativa técnica convive com as lembranças dos moradores e dos trechos antes cobertos pelos rejeitos, uma memória que as comunidades carregam e que naturalmente precisam permanecer presentes em qualquer narrativa sobre esse “sucesso”, pois também o compõe.

A Carta Santarém

Em um cenário mais amplo, surge a Carta Santarém, um documento firmado entre o Simineral (Sindicato das Indústrias Minerais do Pará) e a SEMAS (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará) em setembro de 2025, que pretende sistematizar dados técnicos do setor e apontar governança, considerando as perspectivas da COP 30, em Belém. A ideia é construir um banco de dados técnico-ambiental que dê transparência e permita que a mineração paraense dialogue de forma mais integrada com agendas climáticas e de desenvolvimento sustentável. Para o setor, isso é essencial se a meta é aparecer como parceiro em soluções climáticas, tema atual e necessário para qualquer negócio global, em especial na Amazônia.

Esse documento tem função dupla, política e simbólica. Surge como carta de apresentação do setor para eventos como a COP 30, sinalizando compromisso com inventários, práticas ESG e monitoramento. E ao mesmo tempo, representa uma aposta na técnica como moeda de credibilidade, se houver dados independentes e auditáveis, a mineração ganha instrumentos para negociar sua presença na pauta climática. Porém, a eficácia depende de execução, dados abertos, verificáveis e com participação social são pré-requisitos fundamentais.

Como o Lago Batata dialoga com o legado da COP 30?

A COP 30, realizada em Belém em novembro de 2025, colocou a Amazônia no centro do debate climático. Nesse tabuleiro, casos locais de restauração ganham status de exemplo prático para mostrar soluções adaptativas e de mitigação. O Lago Batata, com sua trajetória documentada, torna-se uma narrativa que o setor mineral pode usar para demonstrar resiliência, capacidade de recuperação ambiental e contribuição para serviços ecossistêmicos.

Margem do Lago Batata em outubro de 2024 (Foto: Acervo Pessoal)

Do meu ponto de vista, visitar e ter presenciado o Batata em 2024 dá densidade a essa leitura. O que vi foi um esforço coletivo que exige tempo, paciência e investimento constante, não existe um botão mágico que “resolve” os impactos. Em espaços de debates como uma Conferência das Partes, esses exemplos ajudam a incentivar políticas públicas melhores, mais eficazes e adaptadas a nossa realidade, mas só se acompanhados de políticas de fiscalização, financiamento para restauração e inclusão das populações tradicionais e ribeirinhas nas decisões.

O caso do Batata mostra que restauração em mata de igapó é possível com ciência, articulação e recursos. Porém, o que o torna exemplar de fato é a transparência e a participação, indicadores que a Carta Santarém, por exemplo, pretende fortalecer no âmbito do setor minerador paraense. Se a Carta for implementada com dados públicos, auditoria e participação social, poderá ser uma ferramenta útil na transição do discurso para a ação mensurável, algo inédito, pioneiro e sem dúvida, inovador.

Assim, o Lago Batata é um ponto de partida para debates ainda maiores, por exemplo, como conciliar mineração e conservação ambiental? Como reconhecer o passado e partir para ações distintas no presente? A resposta não é só técnica, é política, cultural e histórica. Estive lá, vi e registrei, a recuperação é real, o trabalho é intenso, mas as perguntas sobre reparação, memória comunitária e governança permanecem (nem sempre é fácil traduzir conteúdo científico em linguagem acessível). A Carta Santarém e a COP 30 podem abrir janelas importantes para que esses casos deixem de ser exceção e se transformem em política pública efetiva, mas só com dados verdadeiros, fiscalização e potencializando a voz dos territórios.

 

Fontes:

  1. Carta Santarém. Simineral.org.br. Publicado em 12 setembro de 2025. Disponível em: página do Simineral. Disponível em https://www.simineral.org.br/noticias/carta-santarem. Acesso em 20 de novembro de 2025.
  2. MINERAÇÃO RIO DO NORTE (MRN). Jornada de Restauração Ecológica do Lago Batata (e-book). MRN, 2025. PDF e material de campanha institucional. Disponível em https://mrn.com.br/images/documentos/E-book_MRN_LagoBatata.pdf. Acesso em 20 de novembro de 2025.
  3. MRN revela jornada de restauração ecológica do Lago Batata. 03 fevereiro de 2025. Disponível em https://ibram.org.br/noticia/mrn-revela-jornada-de-restauracao-ecologica-do-lago-batata/. Acesso em 21 de novembro de 2025.
  4. MRN é reconhecida no Prêmio Aberje com o case de recuperação ecológica do Lago Batata. Notícia institucional MRN, 2025. Disponível em https://mrn.com.br/index.php/pt/noticias/todas/584-mrn-e-reconhecida-no-premio-aberje-com-o-case-de-recuperacao-ecologica-do-lago-batata. Acesso em 21 de novembro de 2025.
  5. REVISTA ALUMÍNIO. Restauração do Lago Batata: exemplo de mineração sustentável. 06 fev. 2025. Disponível em https://revistaaluminio.com.br/restauracao-do-lago-batata-exemplo-de-mineracao-sustentavel/. Acesso em 22 de novembro de 2025.
  6. COP30 Brasil (site oficial). COP30 — Belém, 2025. Disponível em https://cop30.br/pt-br. Acesso em 22 de novembro de 2025.
  7. GOVERNO FEDERAL / Planalto. Informações sobre COP30 no Brasil. Disponível em https://www.gov.br/planalto/pt-br/agenda-internacional/missoes-internacionais/cop28/cop-30-no-brasil. Acesso em 23 de novembro de 2025.
  8. BRASIL MINERAL. Carta Santarém sela compromisso entre Simineral e SEMAS para radiografia da mineração no Pará. 17 set. 2025. Disponível em https://www.brasilmineral.com.br/noticias/carta-santarem-sela-compromisso-entre-simineral-e-semas-para-radiografia-da-mineracao-no. Acesso em 23 de novembro de 2025.
  9. Guia COP30 / FAS-Amazônia. Guia COP30 2025 (PDF informativo).

 

Sobre o autor

Jornalista, formado pelo Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro - RJ. Produtor Cultural e Produtor de Conteúdo Digital. Idealizador dos projetos Caminhos da Floresta, Amazônia Fashion Weekend e Piracaia Festival. Autor do blog de turismo e viagens www.diariodofb.com. Diretor dos documentários O que é Sairé? (2021) e Trap: O som da juventude (2021) - produzido, gravado e editado em um smartphone.

Você também pode gostar: