No aniversário de Santarém, é tempo de celebrar… mas também de puxar o freio e repensar algumas histórias que a gente escuta desde criança. Sabe aquelas versões que viram lenda com o tempo? Pois é! Neste post separei três fatos históricos que podemos desmistificar e que podem te surpreender e fazer olhar pra nossa cidade com outros olhos. Bora descobrir?
1 – O naufrágio que não existiu

A primeira história envolve o naturalista alemão Karl Friedrich Philipp von Martius, que passou por Santarém em 1819 durante uma das mais importantes expedições científicas do século XIX, junto com Johann Baptist von Spix. Reza a lenda popular que ele teria sofrido um naufrágio no Rio Amazonas, fez uma promessa e, em agradecimento por ter sido salvo, doou um crucifixo à Igreja Matriz. Mas os próprios diários de Martius contam outra versão: ele estava nadando no rio (imprudentemente) e quase se afogou. Não houve naufrágio, mas sim um susto causado por descuido. Ainda assim, a promessa foi feita e cumprida, e o crucifixo, uma peça belíssima em aço fundido, está até hoje exposto no altar da Catedral, como testemunho de uma história real que acabou virando lenda.
Leia mais: O Crucifixo von Martius.
2 – Igreja sobre um cemitério indígena
Entre os Tupaiús (mais tarde conhecidos como Tapajó), o luto e os rituais de despedida iam muito além do que a gente entende por “enterro”. Segundo Felisberto Sussuarana (1991), havia três formas bem diferentes de lidar com a morte. Se o falecido fosse um grande cacique, ele era mumificado e pendurado no alto da oca, onde permanecia como uma espécie de guardião espiritual da família. Esse corpo era chamado de Monhangaripi (o ancestral, o primeiro). Em outra prática, o corpo era enterrado no chão da própria oca, mas tempos depois os ossos eram retirados e realocados num espaço mortuário, numa espécie de segundo enterro. Já num terceiro tipo de rito, o corpo era colocado sobre duas fogueiras até desidratar. Depois, os ossos eram moídos e misturados a uma bebida fermentada, que era compartilhada entre parentes e convidados especiais. Um jeito ancestral de manter a presença do morto viva dentro da comunidade (literalmente).
Cabia as velhas moer os ossos e misturar seu pó em morocorós (quaisquer bebidas embriagantes) que eram servidos a família e aos amigos do defunto. Era uma honra para os tuxauas e homens ilustres das tabas vizinhas serem convidados para o ato (Felisberto Sussuarana em Santarém antes de sua Fundação. IN: Programa da Festa de Nossa Senhora da Conceição (PFNSC). Santarém, 1991)
3 – Santarém ancestral
E por fim, um dos mitos mais repetidos por aí: que Santarém tem “apenas” 364 anos. Esse número faz referência à fundação oficial da missão jesuíta comandada pelo padre luxemburguês João Felipe Bettendorf em 22 de junho de 1661. Mas a história deste território vai muito além disso. Pesquisadores como Eduardo Góes Neves e Denise Gomes revelam, com base em escavações arqueológicas, que a essa região do Tapajós já era habitada por populações complexas há pelo menos quatro mil anos. Povos que dominavam cerâmica, arquitetura, agricultura e mantinham redes de troca e contato com outros grupos da Amazônia e até de outras regiões do continente. Santarém, segundo esses estudos, pode ser considerada a povoação mais antiga organizada do Brasil (muito antes da chegada dos europeus).
Então, é hora de lembrar e registrar que a história de Santarém não começa com a fundação colonial. Ela é profunda, milenar, marcada por conhecimentos ancestrais, resistência e uma memória que precisa ser contada do jeito certo, com orgulho e pertencimento.
Fontes:
SUSSUARANA, Felisberto. Santarém antes de sua Fundação. IN: Programa da Festa de Nossa Senhora da Conceição (PFNSC). Santarém, 1991.
SOUSA DOS SANTOS, Moises Daniel e DOURADO DA SILVA, Suzanna. Os indígenas Tupaiús e sua história no município de Santarém/PA – Revista Presença Geográfica – Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil – ISSN-e: 2446-6646/ vol. 08, núm. 02, Esp., 2021. Disponível em: https://portal.amelica.org/ameli/journal/274/2742358015/html/#redalyc_2742358015_ref12
Blog do Padre Sidney Canto
